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terça-feira, outubro 31, 2017

Quando a Morte nos Cerca [Joelma]


“Querida, pegue meu caderno... está naquela gaveta...”

Eu sei que isso vai lhe parecer loucura, apenas leia.

A voz da vovó me acordou, não de sobressalto, mas com estranhamento, demorei alguns minutos, primeiro na tentativa de fazê-la voltar a dormir, depois para compreender o que dizia, não fazia ideia de que caderno de anotações era esse ao qual ela se referia. Você sabe muito bem como ela estava nos últimos dias, na verdade ela piorou muito depois que a viu pela última vez, mas isso foi apenas o começo do fim.

Ela tinha escondido por anos uma espécie de diário, tinha a capa de couro, na verdade era isso, uma capa de couro fino que guardava jornais, papeis com anotações, números de telefone e endereços, embalagens de doces, ingressos de cinema, uma infinidade de fotos, e a minha história, que ela deixou como gran finale da história dela.

“Hoje é minha última noite com você querida, obrigado minha pequena por permanecer ao meu lado, mas eu já estou mais do lado de lá do vale do que deste... preciso lhe contar sobre seus pais...”

Eu nunca havia lhe pedido para contar sobre eles, mas sabia que esse dia chegaria, talvez esperasse, eu me lembro de voltarmos da escola na adolescência e enquanto compartilhávamos nossos dias, nossos amores de juventude, eu me pegava pensando: será que hoje, ao sentarmos à mesa ela olhará em meus olhos e me dirá como meus pais se conheceram, como namoraram, o dia do casamento... mas esse dia nunca chegou.

“Eu amei tanto seu vovô, ainda o amo, hoje ele sentou-se à cama comigo e disse que voltaria mais tarde buscar-me... a maldade do mundo nos cerca, a nossa volta existe uma batalha invisível... um homem tirou a vida do seu avô, meu amor.”

Isso me abalou! No caderno de couro havia um endereço, que não existe mais, estava escrito pela letra do vovô, ele era bombeiro e atendeu um chamado, mas um chamado da polícia, anotou às pressas o endereço e partiu com seus companheiros para a retirada de corpos em um poço.


A foto do poço estava ali, em minha mãos, a morte no corpo de três mulheres sugou a vida dele. Enquanto eles faziam a remoção dos corpos um tiro seco foi ouvido no interior da residência. Os policiais ainda viram o sorriso no rosto do homem com o peito aberto pelo disparo, sorriso que transformou-se no mais aterrorizante grito de horror e morte.

Este homem havia matado a própria mãe e duas irmãs, ele as envenenou com sonífero e disparou contra elas, não puderam se defender. Não era a hora delas, a mais jovem segurou com as mãos de sua alma as mãos salvadoras da alma do vovô, que dias depois foi levado.

Meu pai era um rapaz na época. Nunca soube disto, vovó não conseguiu encontrar o momento certo para lhe contar, como fez comigo, pois a vida do papai e da mamãe também foram ceifadas na lâmina afiada da morte antes da hora.
Mamãe tinha um bom emprego no banco quando conheceu seu amor, ele era segurança bancário, dizem que foi amor à primeira vista, eles se apaixonaram no primeiro dia de trabalho dele naquela agência. Quando ela foi promovida e transferida da agência para os escritórios do banco, ele conseguiu a função de ascensorista no mesmo prédio que ela.

Eu havia completado 03 anos e você era um bebê.

Papai ouviu gritos ecoando pelo prédio, e já ouvia passou apressados pelas escadas, na verdade permaneceu estático e em silêncio por alguns minutos na tentativa de compreender o que estava ocorrendo. Logo isso foi quebrado. Várias pessoas surgiram no fim das escadas gritando que o prédio estava em chamas. Correu ao telefone. Chamou os bombeiros. Foi salvar seu amor.

O elevador estava sendo chamado em vários andares, e o espirito de bombeiro do vovô tomou conta dele quando percebeu que as pessoas sozinhas não conseguiriam se salvar. O primeiro andar em que o elevador parou estava tomado de fumaça, uma fumaça grossa e escura, ele apenas ouvia gritos, algumas pessoas conseguiram entrar no elevador. Saiu no corredor e arrastou mais algumas para dentro e desceu.

Subiu novamente, ao abrir as portas de aço viu passar pelo corredor um homem em chamas, e na sua frente um corpo derretia no piso de mármore. Não poderia ficar ali. Seu coração aos pulos o fez apertar o andar de sua mulher, mas o elevador parou antes. Outras pessoas foram socorridas.

Subiu e desceu incontáveis vezes, até conseguir chegar ao andar onde ela estava. Quando as portas se abriram percebeu que apenas uma fresta da entrada estava no andar do prédio, um espaço pelo qual ele não poderia passar, sentiu as solas de borracha da sua bota derretendo dentro do elevador. Ela estava viva, ele sabia disso e começou a gritar por seu nome, no meio das chamas ela surgiu e segurou suas mãos até o fim.

“Ela queria ser atriz, andava com seu pai em um carro alugado para festas, era um carro conversível, eles encenavam trechos de filmes que assistiam no cinema, e tinham como espectadores as estrelas... aquilo era uma bobagem, mas uma bobagem tão linda... entende? Nunca houve dor para eles...”

Ela conseguiu, realizou seu sonho de ser atriz, fez uma participação num filme, apenas um reflexo, mas eu a vi, todos viram. Ela estava ali com seu sorriso e beleza, roubando a cena:



quinta-feira, julho 27, 2017

Águas Passadas [Poema, Maria Helena]

Este texto belíssimo é uma colaboração da minha irmãzinha, Maria Helena, já está na gaveta há algum tempo, mas postamos aqui hoje para a eternidade, pois é o aniversário dela, uma das mulheres mais aguerridas e batalhadoras que podemos conhecer. Quem conhece a Maria Helena intimamente enxerga em cada verso suas vivências e lutas, quem não a conhece assim, ou nunca ouviu falar dela, enxerga sua própria linha da vida que corre como um rio profundo na nossa alma; este é um dos atributos do poeta, encontrar nas palavras significâncias que transpassam, como espadas do mais rígido aço, nossos coração de mais pura seda. 

Maria Helena, professora há 30 anos no município de Ourinhos/SP, trabalha na mesma escola há 25 anos; formada em matemática, biologia e pedagogia. Atua no Ensino  fundamental  e Educação  Infantil. Mãe  de dois filhos: Lúcia Helena, a caçula de 13 aninhos, e o Lucas, com 22. "Amo o que faço, sou idealista ainda acredito que a educação é o caminho para nossas crianças alcançarem  seus objetivos".

"Escrevi este poema na minha sala de aula, num momento de produção de texto dos meus alunos. Escrevi comparando a vida com as águas de um rio, pois passei por muitas coisas na vida, algumas percas, mas muitas conquistas no momento atual como o rio que sempre está  com suas águas renovadas."

Águas passadas

A vida é como um riacho
repleto de água corrente,
tanta coisa passa pela gente...

Dor, amor, saúde, doença,
tudo curado pela crença.
Ela passa com rapidez,
mas as recordações tem sua vez.

Recordações de um amor
que causou dor
Recordação de um nascer,
que causou florescer
Recordação de alguém,
que flui para o além.

As águas passam nas corredeiras.
A vida corre ligeira.
Tudo se renova, tudo é uma lição...
Quando o coração se abre,
Uma nova missão.



Maria Helena


sexta-feira, maio 13, 2016

Oh Lola, tão doce silêncio... [Arrepie-se]

Este post precioso é fruto de umas das mais emocionantes parcerias que poderia realizar em minha vida; a autora do texto é minha aluna, mas há muito já me superou em existência intelectual e literária, logo é com grande honra que compartilho este arrepiante e delicioso texto com todos. Prepare-se.

Oh Lola, tão doce silêncio...

"Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia." –
O Corvo, Edgar Allan Poe


Você se esgueirou para baixo da cama e, em um movimento súbito, levou sua mão a boca tentando enrustir sua respiração.

Oh Lola, por que tão ingênua?

Um homem adentrou o quarto, você não o reconheceu, mas sabia exatamente porque ele estava lá, você achou que poderia simplesmente desaparecer?



Oh Lola, por que tão ingênua?

Ele caminhou lentamente até o outro lado do quarto, e, por um descuido, deixou a porta aberta. Oh Lola, você podia ter corrido.

Oh Lola, por que tão ingênua?

Você estava assustada, tremendo de medo, e sem querer bateu o braço na parede, chamando a atenção do homem. Oh Lola, ele ouviu.

Oh Lola, por que tão ingênua?

Ele puxou seus pés e te arrastou para fora da cama. Você se levantou e ficou frente a frente com seu assassino, e de repente nada importava mais. Mesmo mantendo distância, eu tenho certeza que ele sentia sua forte respiração.

Todos nós sentíamos Lola. Você poderia ter gritado, lutado, mas só resistiu, se deixou levar, até que finalmente pode repousar serenamente.

Com um tiro, você caiu no chão e ficou frente a frente com o monstro presente embaixo de sua cama. Você teve o que mereceu, disse o monstro. Você olhou para o monstro ignóbil, com seus olhos cravados em sua barriga ensanguentada, e viu uma lágrima escorrendo pela sua pele.

Oh Lola, agora você sentiu.

Com um grande esforço, você moveu sua cabeça para o lado e viu o homem saindo do quarto apressadamente.

Oh Lola, ele sabia que você não iria resistir.

Cedo ou tarde eles iriam te achar, não iriam? Mas talvez fosse mais fácil para os pais contratarem um assassino do que esperarem a polícia te achar. Eles precisavam se vingar Lola.

Acho que ninguém desconfiaria que você faria mal a alguém, mas você fez.

Deu-lhe na veneta e percebeu o quão pérfida havia sido. Você começou a chorar e berrou, juntando toda a força que lhe restara, sabendo que não haveria resposta. Olhou para baixo da cama e viu apenas um espelho, e então seu choro cessou e você pode descansar serenamente.

Oh Lola, tão doce silêncio...

Ninguém iria em seu enterro, você era uma assassina, você estava sozinha.



Oh Lola, por que tão ingênua?


++++++++++++++++++++++++


Sobre a autora:

Mônica A. Noveli, 13 anos, apaixonada por literatura e biologia, estudante do 9º ano do ensino fundamental. Corpo está presente em Ourinhos–SP, não se sabe em qual galáxia sua mente está. Escreve por diversão, tenta achar coisas onde não há. Aceita livros de presente. Sempre de bom humor -exceto de manhã, tenta levar a vida da forma mais agitada o possível. Gosta muito de sorvete de passas ao rum e batata frita. Acredita que quanto mais cores, melhor. Aceita livros de presente.

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Naquele dia [apaixone-se]

Esta é uma publicação muito especial neste blog, esta narrativa foi escrita por mim e pela Maina Salén do blog GeoPoetizando [link], uma parceria que me trouxe muito orgulho, Maina é uma professora com uma capacidade criacional literária muito grande e bela, além disso, é uma mulher única e sem igual na sua bondade e sensibilidade, vale muito a pena conhecer seus escritos e, acima disso, seus feitos. 

Obrigado Maina por ter iluminado com seu nome e com suas palavras este blog tão singelo.
Deliciem-se com esse texto tão singular e ao mesmo tempo tão amplo, afinal, quem nunca passou por isso antes? 


Naquele dia


Ele

Quando ele acordou naquela manhã logo procurou planejar suas palavras, ações e reações, criar momentos favoráveis que os levassem a um momento sublime e ainda sentia os efeitos do despertar quando percebeu que isso é impossível, não se cria momentos inesquecíveis, eles acontecem com quem espera milagres.

Aliás, quando ele acordou pela manhã jamais poderia imaginar que seu dia não teria 24 horas, como todos os outros da sua vida, jamais poderia imaginar que um gesto, que para tantos é banal, seria radiante o suficiente para quebrar paradigmas temporais.

Naquela manhã não poderia imaginar qual o real sentido de um mar de sentimentos invadindo o pequeno cais do seu coração, nem como poderia ser um tufão de emoções destruindo o pequeno e frágil forte que protegia sua razão.

Sendo assim, ele não imaginava que aquela seria a sua última manhã, pois o homem que despertaria no outro dia seria outro completamente diferente.

E ainda amanhecia o dia...


Ela

Despertou calmamente com as imagens desfazendo-se aos poucos perante seus olhos. Ela sabia que não era simplesmente um sonho, e sim seus tão imaginados desejos que insistiam em ocupar-lhe a mente.

Respirou a poeira do sol que entrava pela fresta da janela de seu quarto. Sentiu um nó na garganta ao perceber que o coração ainda doía. Quando ela acordou naquela manhã tinha a ilusão de que ao dormir poderia amanhecer sem a dor, porém sentiu a saudade, aquela saudade que sufoca, pois era a saudade de algo que ela nunca viveu.

Olhou para o pequeno porta-retrato em seu criado mudo ao lado da cama, era uma fotografia dele, uma fotografia roubada, um doce segredo que ela guardava. Perdeu a noção de quanto tempo ficou sentada na cama observando cada detalhe dele, guardando a imagem em sua retina, pois em seu coração ele habitava há tempos.

Naquela manhã ela acordou e percebeu que era um redemoinho, onde girava e girava sem parar todas as suas dores, todos os seus sorrisos, todos os seus desejos, engolindo-a para dentro de si própria.

Assustou-se com o toque de seu aparelho celular, era o despertador, lembrando-a dos compromissos que tinha naquele dia. Ela desligou o alarme, visualizou as horas, espreguiçou-se estalando as costas antes de levantar da cama, e mesmo sem saber, já não era mais a mesma mulher.

E ainda amanhecia o dia...


Ele

Tudo o que foi pensado, feito e dito naquele dia concorreu para que o cume fosse com determinado desfecho, e o dia não acabaria enquanto a escalada não chegasse ao fim, que nada mais era, do que um início.

Os mais belos momentos de nossas vidas, chegam em escalas, muitas vezes parecem surpresa aos nossos olhos humanamente depressores, mas são na verdade construídos por almas que já estavam unidas muito antes dos corpos, e naquele dia ele era avisado de cada escala daquela viagem até que seus olhos puderam cruzar com os olhos do desejo ardente de seu coração: ela chegou...

Ela

Olhou para o relógio no seu pulso e reclamou internamente das horas. Cada segundo era uma infinidade de tempo que estava longe dele. A ansiedade intensa a fazia gritar em plenos pulmões preenchendo todo aquele silêncio da espera. Naquele dia ela era mais turbulências que todas as aeronaves do mundo.

Sufocou-se com seus gritos inaudíveis e uma lágrima surgiu no mesmo instante que brotou um pensamento, pensamento esse que a feriu como um espinho, e se ele não viesse ao seu encontro.

No entanto, mesmo o dia encontrando-se em seu fim, onde a noite tentava engolir os últimos raios de sol, ela iluminou-se devido o desejo ardente de seu coração: ele chegou...


Então, veio o silêncio e fez-se a cena

Não há jogos, não há planos neste momento, o que existe são olhares, toques que descarregam uma energia imensamente grande, e que ainda assim eles tentam absorver para si, procuram desesperadamente ser essa energia, decifrá-la para que no futuro possam reproduzi-la sem erros.

Mas há um momento, um segundo em que o mundo simplesmente para de olhá-los e passa a contemplá-los extasiado. É o momento! Seus olhares se cruzam e surgem os sorrisos, pois ele sabia no que ela estava pensando, e ela, sabia que ele sabia. Na verdade, eles são incapazes de esconder qualquer coisa um do outro, basta um olhar e a conversa já foi travada, o segredo já revelado e a omissão completamente desfeita.

O beijo

E chegou o momento! Aquele momento transbordante onde as palavras sucumbem, os gestos não bastam para expressar o que está em si, seus olhares fixos e de pupilas dilatas revelam um ao outro que nada mais pode ser contra, e a entrega ocorre através de um verso simples, mas complexo, onde apenas seus lábios poderiam criar a rima.

No caminho do encontro dos lábios desejosos, seus corações cessam todas as atividades, mas, no encontro único, consumado num beijo tão desejado, o mesmo coração volta a bater, porém com uma diástole que parece querer lançá-lo para fora do peito dele ao encontro do coração dela.

Eles percebem nesse momento que mais do que os lábios, os corações também se beijam naquele instante, neste encontro se fazem um pela primeira vez, quando os lábios buscam um ao outro num desfecho pacífico, mas avassalador, eles percebem que era exatamente ali que desejavam estar, não o lugar em si, mas sim, a maneira: um no outro e outro no um.




Por

Flávio Ferreira e Maina Salén [link]


terça-feira, janeiro 19, 2016

Edgar Allan Poe [niver do terror]


A Narrativa do personagem Arthur Gordon Pym, contava a história de um navio à deriva cuja tripulação faminta tirava no palitinho quem seria comido pelos outros. A vida imitou a arte 46 anos depois, quando a tripulação do Mignonette passou exatamente por isso. A grande coincidência? Os azarados que viraram refeição. Ambos eram camareiros e chamados Richard Parker

O autor da narrativa? 

Edgar Allan Poe que se estivesse vivo faria 207 anos hoje.



Este blog é executado sobre as sombras e olhares de duas aves símbolo: o corvo e o carcará, e este corvo não está aqui por acaso. Quando adolescente ganhei um livro de contos de um autor que não conhecia, mas que passou a ser fundamental na minha formação profissional, intelectual e até pessoal.

Edgar Allan Poe foi o criador do gênero “romance policial”, apesar de suas histórias de crimes serem conhecidas na França desde o séc. XVIII, através de publicações de biografias de bandidos famosos. Em contos como: “Os Crimes da Rua Morgue”, “O Mistério de Marie Rogêt”, “A Carta Roubada”, que são necessariamente contos policiais, Edgar Allan Poe deu uma grande contribuição à literatura policial, muito antes de Conan Doyle e Agatha Christie. Nestes contos, Poe descreve as investigações de Auguste Dupin em vários casos, mostrando uma engenhosidade perfeita.

Além do gênero investigativo, criado por Allan Poe, ainda nos restam obras de terror psicológico, contudo, acima das questões psicológicas dos personagens e de todo o clima de suspense alimentado pelo autor, é de suma importância salientarmos o fator da patologia. O autor, por muitas vezes, apresenta seus personagens não pelas suas características físicas, mas sim pelas suas patologias, como ocorre no conto “O Coração Denunciador”. A narração, com foco na análise patológica dos personagens, acaba por tornar-se presente na literatura naturalista, isto na metade do século XIX, todavia, Edgar Allan Poe, também neste caso, mostra-se um homem além de seu tempo, pois, já utiliza esse recurso muito tempo antes da existência dessa escola literária.

Os contos de Poe sempre são cheios de canibalismo, pestes, cataclismos, incinerações, estranhos males físicos e pacientes de manicômios, além da exploração, de forma crua e objetiva, dos mais escuros vales da psique humana. Escritor perturbado e perturbador, Poe é famoso pelas histórias de terror e policiais. Poe é aquele que, de acordo com Lovecraft, “resolveu ser intérprete daqueles poderosos sentimentos e frequentes ocorrências que acompanham a dor e não o prazer, a decadência e não o progresso, o terror e não a tranquilidade.” (Lovecraft, 2007, p. 62).

É interessante observar, ainda, que as mulheres de Poe são sempre uma alavanca para  a loucura inevitável de seus protagonistas homens, tanto por suas inteligências agudas e voltadas sempre para a metafísica e o ocultismo, a ponto de superarem leis da física, como por suas belezas, às vezes estranhas e fora dos padrões, mas, ainda assim, incandescentes.

Allan Poe não foi apenas escritor de contos de terror ou poemas obscuros, por meio de obras como "Filosofia da composição", "O principio poético" e "Eureka", onde Poe mergulha na filosofia, matemática e até hoje causa discórdia e debates sobre os olhares que se detêm nesta obra buscando um olhar universal sobre o conhecimento: 

"Por que não existiríamos? Esta é, até chegar a idade adulta, a pergunta mais imporssível de responder. A existência, a existência de cada um, a existência desde todos os tempos até toda a eternidade, nos parece, até a idade adulta, uma condição normal. (...) Mas logo vem o período em que uma razão convencional e mundana nos desperta da verdade de nosso sonho. A duvida, a surpresa, o inconpreensível chegam ao nosso tempo. Dizem: 'Vives e houve um tempo em que não vivias'"

Quer deliciar-se na obra obscura deste autor? Então não deixe de clicar neste links:



No fim de 2015 tive uma bela surpresa là Poe, na minha pacata cidade do interior de São Paulo, surgiu um novo ponto de encontro, um barzinho com estilo pub intitulado Edgar Allan Pub, onde podemos apreciar o melhor do rock roll, jazz, alternativo, samba e muita música de qualidade, além dos drinks inspirados em personagens e escritos de Allan Poe. Quando você passar por aqui, vale a pena conferir:







segunda-feira, janeiro 18, 2016

Vingança Mortal [r e s e n h a]

Olá, vamos falar sobre um livro especial.



Há alguns meses este blog foi agraciado com o prêmio [link] “Melhor blog amigo 2015” que nos foi concedido pela blogueira Laila Kelly do blog, super apreciado aqui, Livros Terapias [link] . 

Esse prêmio, além do selo, rendeu-nos um troféu, mais que apreciado, o livro “Vingança mortal” da autora Raquel Machado.



Este livro criou muitas expectativas, contamos os dias para sua chegada, só o fato de ser uma autora nacional que encara com muito talento a missão de escritora já nos agradava, e após a leitura da obra não houve duvidas que cada dia a espera do livro valeu a pena. Eis uma resenha sobre.

Lembra-se de amigos do colégio?

Quantos ainda estão próximos a ti?

Quantas reviravoltas deram as vidas daqueles que estão ao seu lado, sorrindo, em tantas fotos esquecidas pelo tempo?

Muitas. Assim como as vidas dos amigos de Brenda, protagonista do livro “Vingança mortal”, que após receber a notícia da morte de sua melhor amiga de adolescência, Nicole, vê-se envolvida numa tormenta de intrigas, mentiras e mais mortes.

Convencida que não foi um simples que ceifou a vida da amiga, Brenda resolve investigar o que realmente ocorreu a sua amiga naquele dia fatídico, contudo essa investigação pode levá-la a descobrir histórias e segredos que podem transformá-la num alvo.

Com esse enredo o livro nos leva por paisagens sulistas  que dão o ar para o desenvolvimento da trama de mistério e crimes, conciso e envolvente as páginas vão correndo diante de nossos olhos, tamanho desejo em descobrirmos onde o próximo passo da protagonista vai nos levar.

Os mistérios seguem uma linha lógica e são bem amarrados, o que nos faz conceber com mais facilidade a realidade dos fatos, e faz também com criemos facilmente a historias em nossas mentes, como se fosse um filme, ninguém dorme em paz enquanto não termina a leitura.

Outro ponto muito interessante é a humanidade dos personagens, o que nos faz criar um laço e nos identificarmos com muita facilidade com todos eles... Ou quase todos, risos. Isso sem contar as surpresas que enredo vai nos agraciando a medida que se desenvolve.

Escrito de forma simples e sem rodeios com certeza a trama vai agradar os amantes de mistério e narrativas criminais e de investigação. Sem contar que poderia ser facilmente transformado num enredo cinematográfico dado as proporções dos acontecimentos. A edição do livro é maravilhosa e contribui muito para a leitura e fluidez da narrativa.

Olhe novamente aquela foto com seus amigos do tempo de colégio e responda a pergunta da autora “até que ponto realmente conhecemos as pessoas?”


Para saber mais sobre a autora e sua obra visite seu blog:



vale a pena! :p


terça-feira, dezembro 22, 2015

Um conto de Natal [2015]

O ventre de José

Abriu seus olhos de súbito. A respiração de Maria o acordara. Não tinha coragem de olhar na direção de sua companheira. Ainda estava olhando para a marquise que os cobria timidamente quando ouviu algo. Outra respiração. Outras. Os cachorros. Assistindo. Ela precisava dele. Coragem José. É hoje.

Ainda era madrugada e ele havia previsto um dia tranquilo para os dois depois de semanas tão luminosas e barulhentas. Primeiro segurou a mão de sua linda Maria e disse que estava com ela, ela lhe sorriu, mas gemia... levemente...  e suava em bicas. Seus lábios esbranquiçados destoavam de sua pele negra.

Colocou-a em seu carrinho de coletar papelão e começou a levá-la para um hospital, as rodas de motocicleta, que sua Maria lhe dera de presente surpresa, sustentavam muitos quilos todos os dias, dos lados via-se claramente triângulos de sinalização pendurados, na traseira uma placa com o dizer “Deus é fiel” e na frente José. Puxando. Abria o caminho na madrugada quente e seca de dezembro.

Avistou um orelhão, mas quem o atenderia; quem ouviria sua voz e sua súplica? Seus braços tremiam e suas pernas fraquejavam, as quatro moringas, penduradas por barbantes, na grande alça quadrada de aço do seu carrinho estavam vazias, lógico, afinal, água era um luxo do qual eles disporiam apenas depois de uma longa jornada que não se realizará mais.

O céu torna-se rapidamente num lindo azul, bem claro. Os pássaros se agitam nas árvores, criando uma bela chuva de flores amarelas e pequenas, ele sente a maciez que o tapete cria ao passar com o carrinho. Força. Rápido.

Um grito. Os cachorros uivam. Dois gritos. Não podia continuar a puxar o carrinho de costas para o ocorrido no interior daquela manjedoura tão singular. Parou. Entrou também e deitado ao seu lado a abraçou. Pode sentir o cravar das unhas de Maria em seu peito e um silencioso deslizar de suas mãos seguido de quase um desmaio.

Levantou-se e viu uma pequena criatura sendo lambida freneticamente pelos cachorros, tirou-os com cuidado e pegou a criança em seus braços. Maria os olhava, transpassada a alma por uma espada de dor e fome e antes que ela desmaiasse, José lhe disse:

__ É um menino...

Sorrisos.
 Latidos.

      Um carrinho de reciclagem chega à porta do hospital.